ESPORTE CLUB

23/5 – seriam precisamente 5 horas da manhã quando toda a população foi despertada pela voz do sino da matriz, batendo rebate. Curiosa e sonolenta abriu apressadamente a sua porta e olhou. O que viu?
Na escuridão da noite... uma fogueira clareava a praça da matriz. Era nosso Esporte Clube que pegava fogo. As longas labaredas vermelhas atravessavam as janelas e lambiam as paredes exteriores, já a altura cheias de espessa fumaça. Muitas pessoas, pressusoras, acorrem ao local do sinistro munidas de baldes d’água.
Mas, que fazer, com nossos escassos baldes d’água diante daquele fogaréu tenebroso e quente. E como era quente! O pipocar das labaredas fazia com que, de quando em vez, caísse uma viga. Até que, finalmente, desabou todo o teto. No dia seguinte, só restavam de pé as quatro velhas paredes escurecidas pela fumaça negra de fuligem.
O esporte clube era o local onde se divertia a nossa sociedade. Era um belo prédio, muito bem construído por arquiteto de Belém especialmente contratado. O salão de baile, em forma quadrangular, era amplo e arejado. Dotado de várias janelas onde, em noite de festas, esvoaçavam, ao vento, belas cortinas brancas de goze. Do meio do Salão pendia grande e belo candelabro de cristal, importado da Europa. Anexo havia um outro salão menor onde ficavam as mães das moças aguardando o final da festa. Depois seguia-se um outro salão em forma retangular onde, em certas festas, se colocavam compridas mesas, cobertas de alvas toalhas de linho branco onde eram servidos, depois de meia-noite, doces e salgadinhos, acompanhados de delicioso café. Sim porque naquele tempo não se conhecia o nosso rotineiro guaraná.
A cerveja gelada se obtinha mandando buscar em sobral, uma certa quantidade de gelo que em seguida era posta em grandes tinas onde já estavam esperando as garrafas de cerveja.
As famílias mais abonadas vinham para as festas de automóvel. Mas, como o automóvel era só um, elas faziam fila para esperar a sua vez. Isto acontecia tanto na ida para o clube como na volta para casa.
O primeiro automóvel que passou a fazer o serviço de taxi em Camocim era de propriedade do Sr. Mário Monteiro.
Tratava-se de um carro grande, de luxo, tipo conversível, americano, de marca “Wyllis Knight”.
Mal se passavam as cinzas do incêndio que devorou o nosso luxuoso Sport Clube e a sociedade de Camocim se reunia novamente e fundava, no dia 11/3/1934, o Camocim Clube, aclamando nessa ocasião a sua primeira diretoria que ficou assim constituída:
Presidente: José Carneiro Veras Coelho Vice-Presidente: Júlio Morel Secretário: Eloy de Carvalho Lima Tesoureiro: Fernando Cela
A sede do novo clube passou a ocupar os amplos salões do pavimento superior de um prédio que ficava entre a rua da estação e a Beira-Mar.
Camocim precisava de Luz elétrica. A Comunidade se reuniu e fundou a Cia. Força e Luz de Camocim. Mandou Buscar na Alemanha um motor que funcionava a gás pobre (gasogênio).
O Administrador da Usina era o nosso querido Dr. Raimundo Cela, posteriormente famoso pintor.A luz acendia ás 18 horas e se apagava á meia-noite. Dez minutos antes de apagar a usina dava um sinal, a fim de que as pessoas se preparassem para a escuridão que viria em seguida.
Era essa a hora em que as festinhas familiares terminavam impreterivelmente.